Pés no verão: rachaduras, micose e frieira — prepare-se para a temporada de chinelos

No verão, os pés passam o dia expostos ao calor, ao suor, à areia e ao chinelo — e três problemas aparecem juntos: a rachadura do calcanhar, a frieira entre os dedos e a micose da sola. Eles se confundem, mas pedem cuidados diferentes. Saber reconhecer cada um ajuda a prevenir e a perceber quando é hora de procurar a dermatologista.
Conteúdo revisado por Dra. Pauline Lyrio — Dermatologista · CRM/ES 10809 · RQE 8532. Especialização em Tricologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Membro da SBD e da AAD. Última atualização: 8 de outubro de 2026.
Por que os pés sofrem mais no verão?
Porque o verão junta, nos pés, as duas condições que os fungos preferem: calor e umidade. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) lembra que as micoses são particularmente frequentes nos trópicos — exatamente o clima de Vitória e da Grande Vitória, onde a estação traz mais suor, mais praia, mais piscina e mais tempo de pé molhado. Os dermatófitos, fungos que se alimentam da queratina da pele e das unhas, são o grupo mais comum de infecções fúngicas: uma revisão publicada no periódico Mycopathologia estima que eles afetam 25% da população mundial.
Ao mesmo tempo, o chinelo e a sandália aberta deixam o calcanhar exposto ao atrito e ao ressecamento. O resultado é um pé que pode estar seco embaixo e úmido entre os dedos — e cada uma dessas regiões tem o seu problema típico.
Rachadura no calcanhar: é pele seca ou pode ser micose?
Na maioria das vezes, a rachadura do calcanhar é ressecamento: a camada mais externa da pele engrossa, perde elasticidade e se rompe quando o pé apoia no chão. A fissura pode doer, sangrar e, por ser uma abertura na pele, servir de entrada para germes. A Academia Americana de Dermatologia (AAD) orienta quem já tem o calcanhar rachado a evitar justamente os calçados abertos atrás, como o chinelo, até a pele se recuperar.
Mas existe uma armadilha: a micose do pé nem sempre coça. A SBD descreve uma forma crônica da tinha dos pés que se manifesta apenas como uma descamação fina, quase sem sintomas — e que costuma ser confundida com pele seca. Algumas pistas sugerem fungo, e não só ressecamento:
descamação fina e esbranquiçada que acompanha as linhas da sola e sobe pelas laterais do pé;
alteração em um pé só, ou muito mais intensa de um lado;
unhas grossas, amareladas ou descolando no mesmo pé;
pele que não melhora mesmo com hidratação feita todos os dias.
Nesses casos, o hidratante sozinho não resolve, e o diagnóstico certo faz diferença. Rachaduras profundas também podem estar ligadas a uma condição médica, como o diabetes, segundo a AAD.
Como cuidar do calcanhar rachado
Para o ressecamento simples, as orientações da AAD são diretas:
limitar o banho a 5 a 10 minutos e secar a pele com toques leves da toalha;
usar sabonete suave e sem perfume;
hidratar logo depois do banho, com a pele ainda úmida, de preferência com creme que contenha ureia de 10% a 25%, alfa-hidroxiácido ou ácido salicílico;
à noite, aplicar vaselina e dormir de meias;
preferir calçados que cubram o calcanhar e estejam bem ajustados enquanto as fissuras cicatrizam.
Vale um cuidado extra: arrancar a pele solta, cortar com lâmina ou lixar com força pode abrir ainda mais a fissura. Calosidade espessa e rachadura que sangra merecem avaliação, e não tratamento por conta própria. Se o ressecamento aparece no corpo todo, o post sobre pele muito ressecada e eczema de inverno explica o mecanismo com mais detalhe.
Frieira: o que é e por que aparece entre os dedos
Frieira é o nome popular da micose entre os dedos dos pés — a tinha dos pés, também chamada de pé de atleta. O espaço entre os dedos é estreito, abafado e demora a secar, e a pele ali fica esbranquiçada, amolecida e descamando. Segundo a AAD, os sinais incluem coceira, ardência e queimação na sola e entre os dedos, além de pele seca e escamosa que costuma começar entre os dedos e pode avançar para a planta e as laterais do pé. Fissuras e mau odor são comuns.
Os fungos encontram ali o ambiente ideal: umidade retida pelo suor, pela praia e pelo banho mal seco. Quem transpira muito nos pés — como acontece na hiperidrose — tem um risco maior, porque a pele quase nunca fica seca. A frieira também se espalha: a AAD observa que tocar o pé infectado pode levar o fungo às mãos, e a infecção de longa data pode chegar às unhas.
As micoses de pele e de unha, seus tipos e o tratamento de cada uma estão reunidos na página sobre micose de pele e unha em Vitória. Aqui, o foco é o pé no verão.
Por que não vale a pena ignorar a frieira
Porque a fissura entre os dedos é uma porta aberta na pele. A SBD alerta que esse intertrigo pode servir de entrada para bactérias e causar erisipela, uma infecção da pele e do tecido abaixo dela, na perna. O peso disso foi medido num estudo francês publicado no BMJ: a frieira com fissura entre os dedos respondeu por 61% do risco atribuível de erisipela da perna na população estudada — e os autores sugeriram que detectar e tratar a frieira deveria entrar na prevenção da erisipela.
Esse cuidado vale em dobro para quem tem diabetes ou má circulação nas pernas: a SBD recomenda atenção especial à saúde dos pés e à prevenção da frieira nesses casos.
Como proteger os pés na temporada de chinelos
As medidas de prevenção da SBD e da AAD cabem na rotina de quem vai à praia, ao clube e à academia:
Secar bem entre os dedos depois do banho, do mar e da piscina — a SBD lembra que as dobras, como os dedos dos pés, precisam de atenção especial.
Usar chinelo em vestiários, chuveiros coletivos, saunas e bordas de piscina, onde o piso fica sempre úmido.
Evitar calçado fechado por muitas horas e preferir modelos largos e ventilados; meias de tecido que absorva o suor, trocadas todos os dias.
Não compartilhar toalhas, meias e calçados.
Cuidar dos sapatos: escamas de pele com fungo podem seguir infectantes por até 15 dias em ambiente a 26 °C, segundo a SBD — por isso a micose volta pelo mesmo par de tênis. A SBD orienta descontaminar sapatos e meias para evitar a reinfecção.
Hidratar o calcanhar, mas não o espaço entre os dedos, que deve ficar seco.
Unha do pé alterada é sempre micose?
Não. A unha engrossada e descolada pode ser micose — muitas vezes vinda de uma frieira antiga —, mas também pode ser resultado de trauma repetido, de calçado apertado ou de outras doenças da unha. O post sobre unhas fracas, quebradiças ou descamando mostra como diferenciar micose e hábito, e a página sobre doenças das unhas reúne as demais causas. Esmalte para disfarçar e antifúngico por conta própria atrasam o diagnóstico.
Quando procurar a dermatologista
Vale marcar uma avaliação quando:
a rachadura é profunda, sangra, dói ao pisar ou não melhora com os cuidados em casa;
a descamação ou a coceira entre os dedos persistem ou voltam toda vez que o calor chega;
surgem bolhas com coceira na sola;
uma ou mais unhas engrossam, mudam de cor ou descolam;
você tem diabetes, má circulação ou imunidade baixa.
Vermelhidão, calor e inchaço que sobem pela perna, principalmente com febre, podem indicar erisipela e pedem atendimento médico no mesmo dia.
Na consulta, o exame do pé e, quando necessário, o exame micológico (raspagem da pele ou da unha examinada ao microscópio) mostram se há fungo ou não. A micose da pele do pé costuma ser tratada com antifúngico tópico, com duração média de 15 a 30 dias, segundo a SBD; a medicação e o tempo de uso são definidos na avaliação individual. Evite cremes por conta própria, principalmente os que combinam corticoide: eles podem disfarçar a lesão sem eliminar o fungo.
Perguntas frequentes
Usar chinelo o verão inteiro faz mal aos pés?
Depende do lugar. Em vestiários, chuveiros coletivos e beira de piscina, o chinelo protege contra os fungos. No dia a dia, porém, ele deixa o calcanhar exposto ao atrito e ao ressecamento — por isso a AAD recomenda calçados fechados atrás para quem já tem rachaduras, até a pele se recuperar.
Frieira passa sozinha?
Raramente. Sem tratamento, ela tende a persistir ou a voltar, pode se espalhar para as mãos e as unhas e mantém a fissura que serve de porta de entrada para infecções. Secar bem os pés ajuda a prevenir, mas não substitui o tratamento quando a micose já está instalada.
Preciso jogar fora os sapatos depois de uma micose?
Nem sempre. O importante é não voltar a usar, sem cuidado, os calçados de antes do tratamento: a SBD orienta descontaminar sapatos e meias, e a AAD sugere descartar ou desinfetar os calçados usados durante a infecção. Quais medidas fazem sentido no seu caso é algo para conversar na consulta.
Posso passar hidratante entre os dedos?
É melhor não. O hidratante é aliado do calcanhar e da sola ressecados, mas o espaço entre os dedos precisa ficar seco — creme acumulado ali mantém a umidade que favorece o fungo.
Quem tem diabetes precisa de cuidados extras com os pés no verão?
Sim. A SBD recomenda atenção especial à saúde dos pés e à prevenção da frieira em pessoas com diabetes, porque pequenas fissuras podem virar porta de entrada para infecções. Observar os pés todos os dias e procurar avaliação diante de qualquer ferida, rachadura ou alteração que não melhora é parte desse cuidado.
Leia também
Rachadura, frieira ou unha alterada que não melhora? Agende sua avaliação com a Dra. Pauline Lyrio pelo WhatsApp (27) 99707-0222. O consultório fica no Centro da Praia Shopping, na Praia do Canto, em Vitória (ES), e a avaliação médica individual define o diagnóstico e o tratamento de cada caso.


